Droga contra depressão pode parar Alzheimer e Parkinson, dizem cientistas

Agora, porém, foram identificadas duas substâncias que têm um efeito sobre o cérebro similar à da descoberta anterior, mas sem o efeito danoso – uma delas é um conhecido antidepressivo. Segundo os pesquisadores, ambas estão prontas para serem testadas com segurança em pessoas. “É realmente animador”, disse a professora Giovanna Mallucci, da Unidade de Toxicologia MRC em Leicester, na Inglaterra.

Ela quer dar início aos experimentos clínicos com pacientes com demência em breve e espera saber, em dois ou três anos, se os medicamentos realmente funcionam.

Por que deve funcionar?

A nova abordagem é focada nos mecanismos naturais de defesa das próprias células cerebrais.

Quando um vírus sequestra uma célula cerebral, há uma acumulação de proteínas virais. As células então respondem interrompendo praticamente toda produção de proteína, para evitar a propagação do vírus.

Muitas doenças neurodegenerativas envolvem a produção de proteínas defeituosas que ativam as mesmas defesas, mas com consequências mais graves.

As células do cérebro interrompem a produção proteica por tanto tempo que elas, eventualmente, se matam por falta de energia. Esse processo, repetido em neurônios em todo o cérebro, pode comprometer movimentos, memória ou mesmo matar, dependendo da doença.

Acredita-se esse mesmo processo se repete em muitas formas de neurodegeneração. Dessa forma, interrompê-lo com segurança poderia tratar uma ampla gama de doenças.

No estudo inicial, pesquisadores usaram um composto que impediu o mecanismo de defesa impulsionar esse processo.

O composto foi capaz de pausar doenças causadas por príons (moléculas proteicas infecfantes) em ratos – a primeira vez que qualquer tipo de doença neurodegenerativa foi interrompido em algum animal.

Estudos posteriores mostraram ainda que a abordagem poderia interromper uma série de doenças degenerativas.

Os resultados foram descritos como a virada decisiva para esse campo de pesquisa, ainda que a droga fosse, ao mesmo tempo, tóxica para o pâncreas.

Drogas seguras?

Desde 2013, o grupo de pesquisa já testou mais de 1 mil drogas em vermes cilíndricos (nematoides), amostras de células humanas e camundongos.

Duas delas foram capazes de evitar tanto uma forma de demência quanto doenças causadas por príons ao interromper a morte de células cerebrais.

“Ambas tiveram um nível de proteção alto e impediram deficits de memória, paralisia e disfunção das células cerebrais”, disse a professora Giovanna Mallucci.

Entre as duas drogas, a mais conhecida é a trazodona, um antidepressivo. A outra, chamada de DBM, está sendo testada em pacientes com câncer.

“Está na hora das pesquisas clínicas para ver se há efeito similar em pessoas”, avaliou Mallucci.

“É muito improvável que as curemos completamente, mas se você segura a progressão, você transforma o Alzheimer em algo completamente diferente (do que é hoje)”, complementou.

Embora a trazodona seja um medicamento mais comum, a professora lembrou é preciso ter calma: “Profissionais, como médicos e cientistas, devem aconselhar as pessoas a esperarem pelos resultados”.

O que pensam outros especialistas?

Doug Brown, da Sociedade do Alzheimer, está animado com as possibilidades que surgem a partir do estudo, classificado por ele como “bem conduzido e robusto”.

“Como uma das drogas já está disponível como um tratamento para a depressão, o tempo necessário para ir do laboratório à farmácia poderia ser drasticamente reduzido”, afirmou.

David Dexter, do grupo britânico Parkinson’s UK, disse que a uma pesquisa é muito importante.

“Se esses estudos forem replicados em humanos por meio de pesquisas clínicas, a trazodona e o DBM poderiam representar um grande passo adiante”, disse Dexter.

Neurodegeneração

– Uma doença neurodegenerativa é aquela em que se perde células do cérebro e da medula espinhal.

– As funções dessas células incluem a tomada de decisão e o controle dos movimentos.

– Essas células não são facilmente regeneradas, de forma que os efeitos das doenças podem ser devastadores.

– Males neurodegenerativos incluem Alzheimer, Parkinson, esclerose múltipla e a doença de Huntington.

Fonte: London Brain Centre

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