ONU premia freira que atende vítimas de estupro

Ao anunciar na segunda-feira 16 a freira congolesa Angélique Namaika como vencedora do Prêmio Nansen, o Alto-Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) chamou a atenção para o conflito na República Democrática do Congo (RDC) – ofuscado atualmente pelos caráter sectário de ataques em meio à guerra civil síria, dos atentados quase diários no Iraque e das consequências da ocupação militar do Ocidente ainda em curso no Afeganistão. O prêmio é considerado o mais elevado tributo a defensores dos direitos humanos.

Contra todas as recomendações para sua segurança pessoal, Angélique, de 46 anos, percorre de bicicleta a região de Dungo, no nordeste da RDC, para atender famílias deslocadas pelos combates entre o Exército de Resistência do Senhor (ERS) e o Movimento 23 de Março (M23), também conhecido como Exército Revolucionário Congolês, contra as tropas do governo do país.

Mulheres e meninas tornaram-se vítimas de um armamento hediondo: o estupro. Thethe, Zena e Mboyo, todas refugiadas no Brasil e atualmente vivendo em São Paulo, são testemunhas vivas da brutalidade cometida contra famílias e mulheres na RDC, o antigo Zaire.

No dia 11, ao serem informadas da premiação de Angélique pelo conjunto de sua obra de assistência – aplicada primeiramente a mulheres sem estudos e, desde 2009, também a vítimas do conflito congolês -, as três aplaudiram espontaneamente. Não conhecem Angélique pessoalmente. Mas, sem notícias sobre o destino de suas famílias no Congo, atestam o valor da possibilidade de auxílio aos seus parentes.

“Amo meu país e tento salvar pessoas que vivem aqui”, afirmou Angélique, de Dungo, durante uma teleconferência organizada pelo Acnur.

Em 2003, a religiosa começou a auxiliar mulheres congolesas em oficinas de costura e de panificação. Seis anos depois, com o novo ciclo de violência protagonizado pelo ERS no país, passou a trabalhar com vítimas do conflito. No Congo, mais de 2,6 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas desde 2009, entre elas a própria Angélique, que afirma ter sido obrigada a se esconder na floresta para escapar da violência dos rebeldes.

Atualmente, 150 mulheres estão sob os cuidados da freira em Dungo. Mais de 2 mil pessoas já receberam sua ajuda desde 2003. Segundo Angélique, mulheres e meninas sequestradas pelos insurgentes estão sujeitas a violência sexual, espancamento e desgastes físicos causados pela subnutrição e pelo trabalho trabalhos escravo – principalmente como carregadoras. Algumas têm os lábios cortados, como punição. Entre as que sobrevivem e escapam, a rejeição se soma ao trauma, pois maridos e pais as expulsam de casa ao saberem dos estupros.

“Quando fui expulsa, sofri a dificuldade de encontrar alguém que me ajudasse. Essas mulheres sofreram muito mais do que eu. Elas foram vítimas de atrocidades”, disse a freira. Thethe, Zena e Mboyo não tiveram saída a não ser deixar o país. Ajudadas por diferentes organizações humanitárias, elas chegaram no Aeroporto de Guarulhos.

A triste jornada de Thethe, hoje empregada em uma lavanderia em Itaquera, na zona leste de São Paulo, começou em 2008 em Kinshasa, quando rebeldes mascarados entraram em sua casa e mataram seu pai, um funcionário do governo, com dois tiros na cabeça. O governo, dias depois, expulsou a família da casa onde viviam.

O refúgio na casa de um irmão durou até o fim de setembro de 2010, quando novamente todos foram forçados a abandonar o lar, desta vez pelo ERS. No caminho da casa da avó materna, rebeldes pararam a caminhonete, roubaram os pertences da família e dividiram o grupo. Thethe e sua irmã mais nova seguiram mata adentro com parte dos soldados, carregando o produto do roubo. A mãe e o irmão foram por outro caminho. Nunca mais se viram. As duas moças foram estupradas inúmeras vezes durante três semanas. Thethe ainda exibe a cicatriz de um ferimento profundo na nuca, resultado de uma coronhada.

“Eles fizeram o que quiseram conosco. Depois nos abandonaram, famintas, na floresta. Estávamos sozinhas, não sabíamos o que fazer. A minha nuca, inflamada, doía muito”, relatou Thethe, de 30 anos, na unidade da ONG Cáritas do centro de São Paulo, onde recebe auxílio psicológico. “Eu preferia ter morrido”, disse.

As jovens foram socorridas na beira de uma estrada por dois homens em um carro, que as levaram para um hospital. De lá, organizações locais providenciaram passaporte e visto – e ambas seguiram para o Burundi e, depois, para o Brasil. “Não há esperança, no Congo, sobretudo no leste. As pessoas sofrem demais. O país parece ter sido sacrificado”, disse.

O marido de Zena, assessor político do prefeito da cidade de Bena, foi assassinado em agosto do ano passado. A família foi expulsa de sua casa por soldados do governo, após Zena ter sido estuprada diante de seus três filhos. Levada para um hospital, recebeu auxílio de um padre, que a transferiu com as crianças para um convento. De lá, a família foi acompanhada por um grupo de religiosos até São Paulo, onde hoje vive em um abrigo da Prefeitura, e obtém ajuda financeira da Cáritas. “Com três crianças, não tenho como trabalhar aqui nem como voltar ao meu país. Minha mãe não sabe se estou viva e não tenho como saber se ela está”, relatou Zena, de 27 anos.

Mboyo, o marido dela, um técnico de informática, e seus cinco filhos fugiram de um ataque do ERS no ano passado. Mas, em busca de proteção em outra cidade, novamente foram surpreendidos no meio do conflito e se separaram em dois grupos. Mboyo acabou estuprada por rebeldes diante do único filho que a acompanhou. Nunca mais ouviu notícias de seu marido e de seus outros quatro meninos. Recebeu socorro de um religioso, que providenciou sua vinda ao Brasil. “Meu filho me pergunta todos os dias onde está seu pai e seus irmãos. Eu não tenho como encontrá-los”, afirmou Mboyo, de 36 anos, que fala apenas seu dialeto nativo.

Histórias como as de Thethe, Zena e Mboyo estão espalhadas pelo mundo, nas memórias de milhares refugiadas congolesas. A irmã Angélique preferiu não sair do país, mesmo sob a ameaça latente de entrar para as estatísticas da violência sexual. Nos últimos anos, ela depôs sobre as atrocidades em seu país diante do Conselho de Segurança das Nações Unidas, em Nova York, na sede da Acnur, em Genebra, e em reuniões dos governos dos quatro países afetados pela ação do ERS – além do Congo, República Centro-Africana, Sudão do Sul e Uganda. No dia 2, antes de receber oficialmente o Prêmio Nansen, ela será recebida pelo papa Francisco, no Vaticano.

Fonte: Estadão

Blog do Deputado Federal GONZAGA PATRIOTA (PSB/PE)

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