UM PAÍS MARCADO PELA FOME

É certo que a fome está associada a catástrofes, a desastres naturais e a cenários de conflitos, quando muitos se propõem ao socorro, assim como está também em áreas urbanas, muito próxima aos olhos que não a veem. No Brasil, está na pobreza o indivíduo que vive com renda mensal per capita entre R$ 85,01 e R$ 170. Estar em situação de extrema pobreza é viver o mês inteiro com R$ 85 per capita (R$ 2,83 por dia).

A reportagem da Folha de Pernambuco andou pelo Recife e Jaboatão dos Guararapes em busca de vestígios da fome e encontrou pessoas que a vivem e a estudam. Números, estudos e relatos estão registrados neste Especial Fome, reportagem marcada pelo resultado da crise econômica, pelo aumento da desigualdade, pela alta inflação, um conjunto que ainda não virou estatística oficial, mas já está dentro da casa de milhões de brasileiros.

“Assunto delicado e perigoso”

Em 2014, o Brasil comemorava a saída do mapa da fome da ONU. Com a crise, perde-se poder de compra e falta comida

Nem um único especialista discordou da complexidade do tema; nenhum cidadão que tem a fome nos olhos falou dela sem baixar a cabeça. Um, com coragem, verbalizou: “tenho vergonha”. Sem muita procura, as ruas encenam o que há tempos dizia Josué de Castro nas primeiras linhas de “Geografia da fome”: “o assunto deste livro é bastante delicado e perigoso. A tal ponto delicado e perigoso que se constitui num dos tabus da nossa civilização”. Falem ou não dela (ou a estudem, estimem, desacreditem, combatam), a fome está viva, e em terreno em crise, com desemprego, inflação e desalento, ela vem ganhando força. Aqui, ela tem nome e voz em Eliel, Juçara, Leidyane, Ana e Felipe.

Em 2014, o Brasil comemorava a saída do mapa da fome da Organização das Nações Unidas (ONU), quando o Indicador de Prevalência de Subalimentação caiu abaixo dos 5% da população – o que não significa que se chegou perto do razoável quando se trata de alimentação de qualidade. Com o cenário macroeconômico que se tem hoje (com fatores como o congelamento dos repasses do Programa Bolsa Família e a inflação em alta), tem-se a perda do poder de compra. Dentro de casa, significa menos comida na mesa ou, tão ruim, a perda do valor nutricional para garantir quantitativamente os alimentos. Estamos falando de fome e fome oculta.

Hebert de Souza (1935-1997), sociólogo combatente da fome no Brasil, dizia que “quem tem fome, tem pressa”. Sim, mas nunca será muito lembrar que essa mazela social não fica apenas dentro das casas dos famintos ou subalimentados, mas impacta com força no sistema de saúde, no rendimento escolar das crianças, na produtividade do trabalhador e, consequentemente, na economia. Todo mundo perde. Para um país que passa fome, a lista de ônus é sem fim, porque as sequelas, boa parte, são irreparáveis. “Do ponto de vista econômico, passar fome significa alijar do mercado de trabalho uma parte importante da população”, diz o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), doutor Raul Silveira Neto, que estuda temas como políticas públicas e determinantes da desigualdade.

E são as crianças que sofrem os maiores danos, os irreparáveis. “Em processo de desenvolvimento, as que sofrem carência alimentar vão viver as sequelas. Por exemplo, a estatura que se deixou de ganhar, não se ganha mais. No adulto, as consequências são menos severas, eles não estão mais desenvolvendo, estão mantendo o funcionamento do organismo”, explica a coordenadora do curso de Nutrição da Faculdade dos Guararapes, Ana Lígia Araújo. Políticas de distribuição de renda são um auxílio absurdamente importante, imediato para a sobrevivência, mas não reconstroem estruturas sozinhas.

Fonte: Folha-PE

Blog do Deputado Federal Gonzaga Patriota (PSB/PE)

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