Editoras se focam em obras de filosofia para jovens
- By : Assessoria de Comunicação do Deputado Gonzaga Patriota
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A filosofia, para o escritor norueguês Jostein Gaarder, nunca foi um campo específico para especialistas. De um forma ou de outra, como ele mostra ao longo do seu famoso romance, O mundo de Sofia, de 1991, todos devem – ou deveriam – refletir sobre o mundo, a partir das grandes questões da nossa origem e do nosso destino. Foi através de uma linguagem acessível, enredos inusitados e exemplos simples que ele ajudou a tornar popular entre jovens a séria filosofia e seus conceitos complexos.
Hoje, é cada vez mais comum encontrar livros que buscam divulgar o pensamento de autores famosos, de Sócrates a Deleuze. As prateleiras estão cheias de obras que prometem uma introdução à filosofia dos clássicos em 60 ou 90 minutos, mas dialogar com os jovens continua sendo um desafio. Uma das novas iniciativas da área é a coleção Jovem Pensador, da editora Alaúde, que estreou com dois volumes.
Coordenada por Ibraíma Dafonte Tavares, editora-executiva da empresa, a coleção traz uma diferença. Ao invés de se voltar para divulgar os trabalhos de pensadores famosos, formato mais comum, os livros se dedicam a temas do universo adolescente. Amar um pouco, muito… Loucamente? traz o tema da paixão, enquanto Obedecer? Rebelar-se? questiona a natureza da relação dos homens com seus pais e com o Estado. Assim como em O mundo de Sofia, a ideia é ir além do mero ensino de uma história da filosofia.
O atrativo dos livros, segundo a organizadora da edição, é justamente esse. “A proposta não é ‘ensinar’ filosofia ou mostrar ao público as correntes filosóficas. Queremos estimular crianças e jovens a filosofar, a fazer perguntas e saber respondê-las, a criar a capacidade de refletir e pensar criticamente”, comenta Ibraíma.
O campo da filosofia não é estranho para a Alaúde, que já atuava nesse mercado. “Existe essa tendêNcia de lançar livros para não especialistas”, explica a executiva. “No final do ano passado, me ofereceram essa série da editora francesa Gallimard, com foco nos jovens. Achei interessante para complementar essa lista que a gente já tinha e fomos atrás para arriscar”.
Obras como O mundo de Sofia e outros livros de Jostein Gaarden, a exemplo de O dia do curinga e Através do espelho, são algumas das que melhores dialogam com o universo dos jovens. Num caminho parecido, entre o humor e a síntese, saiu agora, pela Companhia das Letras, outro volume para popularizar a filosofia: O planeta dos sábios. A edição tem resumos dos pensamentos de alguns dos maiores nomes da área, feitos por Charles Pépin, com quadrinhos surreais e inusitados elaborados pelo ilustrador francês Jul.
FICÇÃO
Uma autora que também trabalha com a filosofia pelo viés da ficção é a mineira Silvana de Menezes. Ela é um dos destaques no campo aqui no Brasil desde 2006, quando começou a publicar a coleção Filosofarte. Dois anos depois, começou outra série de histórias filosóficas, a Pensarte. Nessas narrativas, a autora transforma Platão, Sócrates, Galileu, Heráclito e Freud em personagens instigantes através dos dados históricos sobre eles e, claro, das suas hipóteses.
“Obtenho o máximo de informações e depois vou procurando fatos da vida dos filósofos, principalmente na sua infância e adolescência, para justificar as suas ideias. É uma forma de humanizar o filósofo para que ele não pareça ao leitor um personagem frio, uma estátua de mármore”, conta a escritora. No casos dos gregos, essa construção foi mais complexa, baseada em uma pesquisa histórica mais geral para compor a narrativa.
Para Silvana, crianças e adolescentes são um público privilegiado para a filosofia, desde que o assunto seja trabalhado da forma certa. Ela mesma começou a se interessar pelo tema aos 13 anos, apesar das dificuldades. “É comum a gente encontrar crianças que são verdadeiras filósofas”, aponta, destacando que a aparente simplicidade dos jovens pode trazer respostas mais verdadeiras que questionamentos infindáveis de adultos.
Silvana explica seu método de trabalho com a história de um dos seus livros, O banquete, inspirado na obra homônima de Platão. Para mostrar como acontece esse debate entre filósofos gregos sobre o amor, ela cria Ione, uma garota de 13 anos que vive nos arredores de Atenas. “Ela se traveste de menino, foge para Atenas e acaba como um dos cozinheiros do famoso encontro. É dela que vem a narrativa sobre o amor de Sócrates, Platão e Aristóteles”, conta a autora.
Além de trazer os leitores para a realidade desses pensadores, as analogias são um dos caminhos de Silvana, para dar materialidade a conceitos complexos. “Quando se fala, por exemplo, do mundo ideal de Platão, talvez pareça uma ideia muito complexa. No entanto, é fácil explicar: feche os olhos e imagine um círculo. Depois desenhe o círculo que você imaginou. Isso não será possível, já que na imaginação o círculo é perfeito, impossível de ser reproduzido pela mão humana. Pois bem, o círculo perfeito que você imaginou é o mundo ideal. Esse que vivemos é apenas uma cópia da cópia, da cópia”, argumenta. “A minha maneira de abordar a filosofia é tentando explicar a uma criança ou um jovem de maneira mais simples possível o que parece pura sofisticação. Usando desse instrumento, até eu compreendo melhor.”
Outra preocupação ao falar com crianças e jovens é a linguagem. Ibraíma, da coleção Jovem Pensador, comenta que os textos originais muitas vezes têm expressões complexas, fora do cotidiano dos adolescentes. “Buscamos uma linguagem acessível, mas sem sonegar ao leitor essas palavras mais complexas, que podem aumentar o seu leque de vocabulário”, explica. Um dos diferenciais dos livros da Alaúde são as caixas de textos explicativas, aprofundando termos e conceitos. “O desafio foi tornar acessível, mas sem facilitar completamente ou deixar o texto besta”.
A editora-executiva planeja ainda para este ano, em agosto, dois outros títulos. Um será sobre o tema do trabalho; enquanto outro será sobre a espiritualidade. “Um dos projetos é expandir a coleção com temas do cotidiano dos jovens brasileiros, para tratar filosoficamente a violência urbana, o racismo”, adianta Ibraíma.
Fonte: JC





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