Pernambuco tem maior consumo de Ritalina no Nordeste
- By : Assessoria de Comunicação do Deputado Gonzaga Patriota
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Desde a infância, a falta de atenção e de concentração atrapalhavam os estudantes Juliana, 20, e Mauro, 19 anos (nomes fictícios). Na adolescência, a situação ficou ainda mais complicada. Os dois receberam diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção por Hiperatividade (TDAH) e passaram a usar o cloridrato de metilfenidato, Ritalina, conhecida como a droga da obediência. Os dois pernambucanos fazem parte da lista de brasileiros que nos últimos dez anos contribuíram com o crescimento das estatísticas da medicação de uso controlado no país. O último levantamento da Vigilância Sanitária Estadual, feito em 2010, aponta o estado como o maior consumidor do Norte e Nordeste. Na época, eram 8,06 caixas vendidas do medicamento para cada mil crianças e adolescentes. No Brasil, o consumo de Ritalina cresceu 1.973% entre os anos 2003 e 2013. No mesmo período, a venda da medicação passou de 94 kg para 1.949 kg.
Especialistas dizem que a ampliação do consumo está diretamente associada à expansão do diagnóstico de TDAH. O transtorno era considerado uma desordem emocional e o diagnóstico era dado a um número menor de crianças, segundo Denise Borges Barros, do Instituto de Medicina Social (IMS) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Hoje, diz ela, o transtorno é considerado um quadro psiquiátrico e envolve um número maior de sinais e sintomas. “O TDAH deixou de ser algo transitório, que terminava por volta dos 12 anos, passando a ser compreendido como um problema que persiste durante a adolescência e toda a vida adulta”, observa Denise Barros.Com 30 anos de experiência em consultório, o psicólogo Carlos Brito teme pelo aumento do uso da droga. “É preciso ter cuidado com o diagnóstico de TDAH. Nem sempre a criança é portadora do distúrbio, mas acaba recebendo o tratamento de forma generalizada. O remédio virou a solução para criança agitada e hiperativa”, alerta.
Segundo Brito, adolescentes já chegaram em seu consultório pedindo para ser medicados. “A droga deve ser usada com cautela. Somente o neuropediatra ou psiquiatra podem prescrever”, esclarece o psicólogo. Brito acredita em outras alternativas para as crianças antes de apelar para a medicação de uso controlado. O psicólogo informa que o Brasil é o segundo país do mundo em consumo da droga, só perdendo para os Estados Unidos.
Adolescentes e adultos também estão usando a Ritalina para emagrecer, ter mais entusiasmo nas baladas e até para estudar para concursos. “A droga é um estimulante moderado do sistema nervoso central com propriedades semelhantes à anfetamina. O risco está exatamente aí”, explica a psicóloga Denise Barros, do IMS da UERJ. “O metilfenidato tem sido usado por pessoas que não apresentam o transtorno, mas que querem melhorar o desempenho nos estudos e no trabalho. Quem faz concurso público ou teste para residência médica, por exemplo, tem usado a droga”.
Crianças são as mais atingidas
O Transtorno de Déficit de Atenção por Hiperatividade (TDAH) atinge de 3% a 7% das crianças em idade escolar. Os dados são da neuropediatra Sophie Eickmann, especialista na doença e defensora do uso da Ritalina e outras medicações para tratar o transtorno. Segundo ela, se o TDAH não for tratado na fase da infância pode trazer sérios impactos na vida adulta. “Não podemos deixar que a criança sofra com o transtorno e sinta repercussão acadêmica e social a ponto de prejudicá-la. É a mesma coisa que dizer a um míope que tire os óculos e tente enxergar”, compara.
A neuropediatra ressalta que o TDAH é o transtorno neuropsiquiátrico mais estudado no último século. “A partir dos seis anos, em cada 20 alunos, um terá TDAH. Isso não significa que todas terão que usar o medicamento”, explica a médica. Ela defende o uso do remédio, desde que usado em doses subterapêuticas, ou seja, sem uso contínuo. “Normalmente, prescrevemos o uso da medicação de segunda a sexta-feira e, nos fins de semana, suspendemos”, esclarece.
Juliana e Mauro contam ter tido dificuldades na escola durante a infância por conta do atraso no tratamento. Juliana, por exemplo, não conseguia desenvolver uma rotina de estudos. “Comecei a usar Ritalina aos 16 anos, após passar por uma avaliação psiquiátrica de três meses, quando tive o diagnostico de TDAH”, revela a jovem que hoje tem 20 anos e cursa Terapia Ocupacional na UFPE e ainda usa a droga. Mauro conta que costumava “viajar” e não conseguia concentração para realizar as atividades. “Senti uma melhora imensa. Acho que se não tivesse tomado o medicamento, não teria conseguido prestar vestibular”, confessa o rapaz, aluno do curso de Engenharia da Computação da UFPE. Ele usa a medicação há dois anos.
A duração do tratamento, no entanto, depende de cada paciente. “Tem crianças que usam por um período e param. Outras precisam do remédio até o final da adolescência e início da vida adulta”, observa a neuropediatra Sophie Eickmann. Como todo medicamento controlado, a Ritalina tem seus efeitos colaterais, mas, segundo a médica, podem ser administrados sem maiores problemas. “Alguns pacientes têm o crescimento reduzido. Outros perdem um pouco o apetite, principalmente na hora do almoço. É preciso então trocar os horários, já que na hora do almoço se come menos por conta dos efeitos da droga”, diz.
Alguns adolescentes também ficam mais tristonhos, sem vontade de conversar, mas nada que atrapalhe seus relacionamentos, garante a médica. “O problema está no uso irregular da droga. Tem motorista tomando dez comprimidos com coca-cola para ficar acordado dirigindo”, denuncia Sophie, que participa de um congresso sobre TDAH na Escócia, onde o aumento do uso da droga está sendo discutido.
A nova vida de “Juliana”
“Sempre tive dificuldades com os estudos. Fui uma criança muito inquieta. A minha unha era minha válvula de escape. Usava para aliviar minha ansiedade. Minha família sempre me recriminava. No colégio, tinha professor que, por ignorância e desconhecimento a respeito do TDAH, achava que eu era preguiçosa. Na adolescência, tive muita dificuldade. Era um desânimo grande e não conseguia estudar nada. Não ficava uma aula inteira sentada. Costumava bater as pernas embaixo da cadeira a ponto de incomodar os colegas. No início, tive vergonha de dizer que tomava remédio. Porque o preconceito é grande. A maioria das pessoas acha que quem usa medicação controlada é doido. Antes do remédio, me sentia muito diferente. Às vezes até meio burra, incapaz. Com o uso da medicação, consegui ficar mais centrada. Uma prova é que passei no vestibular em três universidades. Ainda tenho receio em deixar a medicação. Mas estou consciente de que não adianta tomar só a droga. A gente tem que se ajudar. Estou mais amadurecida. Sei que o mérito é todo meu. O remédio ajuda, mas não faz milagre”.
Entenda como age a Ritalina no cérebro
O medicamento age no cérebro estimulando neurotransmissores que têm deficiência ou são produzidos em baixa quantidade, chamados de dopamina e noradrenalina. A ritalina age aumentando a dopamina e a noradrenalina.
Dopamina é uma substância química liberada pelo cérebro que desempenha uma série de funções, incluindo prazer, recompensa, movimento, memória e atenção. Fundamental para motivação, foco e criatividade.
Noradrenalina influencia no humor, ansiedade, sono e alimentação. É sintetizada nas fibras nervosas. Suas principais ações no sistema cardiovarcular estão relacionadas ao aumento do influxo celular do cálcio e a manter o pressão sanguínea em níveis normais.
A serotonina, uma substância química do cérebro, tem uma grande participação na capacidade de desenvolver neurotransmissores.
Fonte: DP
Blog do Deputado Federal GONZAGA PATRIOTA (PSB/PE)





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