Blog do Deputado Federal GONZAGA PATRIOTA (PSB/PE)
Esta não é a primeira tempestade pela qual o Brasil passa e, como em qualquer outro país, não deve ser a última. Indicadores econômicos que estão contribuindo para despertar a insegurança na população – como inflação, desemprego e desvalorização da moeda – relembram momentos vividos em décadas passadas, mesmo que em diferentes proporções. Leia algumas histórias:
SENTIMENTO DE RETROCESSO
O Brasil viu a década de 1980 começar com uma inflação beirando os 100% e terminar próxima dos 1.000%. Em dezembro de 1988 – quando o índice era de 980,21% – a dona de casa Graciany Neves (foto acima), hoje com 45 anos, tinha apenas 18, mas não esquece da louca dinâmica de mudança de preços. “Quando o carrinho de picolé passava na rua e eu saía para comprar, o preço já não era o mesmo do dia anterior. Tinha que voltar e pegar mais dinheiro”, conta.
Hoje com dois filhos de 13 e 19 anos – gerações expostas a um grande estímulo ao consumo –, ela começa a colocar em prática o comportamento que, décadas atrás, aprendeu com a mãe. “Eu pedia as coisas e ela explicava que não dava mais para comprar, que os preços tinham subido. Hoje sou eu quem digo isso para eles. Não dá mais para continuar indo a restaurante, shopping ou cinema”, lamenta Graciany, que sentiu com mais força a volta do fantasma da inflação no último mês.
Os cerca de R$ 850 que antes eram suficientes para a feira mensal se transformaram em mais de R$ 1.100 em agosto. Depois do susto, veio a mudança na escolha dos produtos e o controle mais rígido do cartão de crédito para evitar dívidas. Depois, a frustração. “É um sentimento de retrocesso, um impacto também psicológico. Quando eu era criança, a sensação era de que o País estava em uma crise eterna. Depois vivemos uma época de progresso em vários sentidos. O medo é de que tudo volte.”
1980 – A DÉCADA PERDIDA
>> A brusca queda de 4,25% no PIB do Brasil em 1981 encerra o período anterior, batizado de “milagre brasileiro”, quando o índice passava dos 6% ao ano. A recessão do período tem origem na década anterior, quando o mundo viveu a crise do petróleo, que elevou os juros internacionais, gerou um fluxo de capitais principalmente para os Estados Unidos e Europa e derrubou os preços das commodities. Começa então a chamada “década perdida” na economia do País, um reflexo da crise do petróleo da década de 1970. A crise repercute na política e contribui para o fim do Regime Militar, em 1985.
>> A recessão se reflete diretamente nos índices de ocupação da população brasileira, principalmente no setor formal. A participação dos empregados sem carteira assinada, por exemplo, cresce de 41,9%, em 1981, para 47,2%, em 1983. Apenas em 1987 a taxa se reaproxima dos números registrados no início da década, com 41,7%. A queda nos níveis de emprego, somada à inflação, resulta no empobrecimento da população: o percentual de famílias com rendimento inferior a um salário mínimo passa de 20,8%, em 1979, para 26,5%, em 1990.
“Nos 1980 os brasileiros conviveram com a inflação passando da marca dos três dígitos, um problema muito além do que temos hoje. As pessoas corriam para os supermercados quando recebiam seus salários para garantir a feira do mês. Naquela época o sentimento de incerteza decorria das medidas do governo para controlar os preços, que não surtiam efeito”, resume o professor de economia da UFPE, Marcelo Eduardo.
R$ 100 E SEIS GALINHAS DE SALÁRIO
Integrante do lado que sente primeiro a chegada da tormenta, o mais fraco,Uilson de Freitas (foto acima), pedreiro de 51 anos, está desempregado há oito meses. Este é, até agora, o mais longo período em que contribuiu com a taxa de desocupação do País desde que começou a trabalhar. “Está difícil. Sobrevivo fazendo biscates, mas até isso está aparecendo pouco. As pessoas não têm como pagar”, reclama. Na semana passada, seu único “serviço” foi cimentar uma calçada em troca de R$ 100 e seis galinhas.
Uilson sempre trabalhou na construção civil (começando como auxiliar de pedreiro) e afirma que nunca sentiu tanta dificuldade de encontrar trabalho. O setor foi um dos que mais desmobilizaram mão de obra este ano, influenciado pelas consequências da Operação Lava Jato, do desaquecimento das vendas de imóveis e da estagnação da economia como um todo. “Na década de 1990 muitos amigos ficaram desempregados, tentei ajudar alguns arrumando alguma coisa, e eu mesmo tive medo de ir para a rua. Graças a Deus não aconteceu naquela época”, lembra.
No último emprego com carteira assinada, o pedreiro foi demitido antes de completar três meses e, por isso, não recebeu benefícios como aviso prévio e não pôde dar entrada no auxílio desemprego. Para conseguir pagar as contas, Uilson já vendeu seu meio de transporte, uma cinquentinha, o celular e uma impressora. “Ainda tenho o computador. Vamos ver como fico nos próximos meses.”
1990 – IMPEACHMENT E PLANOS ECONÔMICOS
>> Após o fim do mandato de José Sarney no início de 1990, o País inicia a década com Fernando Collor de Mello na Presidência, posto que deixa dois anos depois, ao sofrer o processo de impeachment. Além dele, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso comandaram o governo durante o período, marcado pela sucessão de planos econômicos, como o Plano Collor 1 (1990), Plano Collor 2 (1991) e, por fim, o Plano Real (1994).
>> O cenário macroeconômico do Brasil durante os anos 1990 tem como destaque a inflação ainda elevada até meados da década e desvalorização da moeda nacional, um reflexo ainda da contração do mercado nacional na década anterior. Durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, a inflação começa a declinar e uma sobrevalorização do real, enquanto as contas públicas permanecem em desequilíbrio.
“Durante a década de 1990 o Brasil consegue controlar a inflação, mas começa a sofrer com uma sequência de crises internacionais, como a do México, em 1994, e a da Rússia, em 1999. Esse cenário leva à estagnação da economia que, sem crescer, não gera empregos”, ressalta o professor Marcelo Eduardo.
DÓLAR ALTO DIFICULTA INTERCÂMBIO
“Tenho um aplicativo de alerta no celular para avisar da cotação do dia e não saio sem uma calculadora. Até para ir na farmácia fico fazendo as contas”. A rotina é vivida há mais de dois meses pela jornalista Priscila D’arc (foto acima), 24 anos, que está estudando inglês no Canadá. Filha de um mecânico e de uma técnica em contabilidade, ambos sem curso superior, ela não imaginava que a tão sonhada primeira viagem internacional pudesse vir cheia de “privações”.
Diante da desvalorização do real, o dólar canadense só aumentou desde que a jornalista aportou em Vancouver. A moeda do país chegou a valer R$ 3,13 em 23 de setembro, mesmo dia em que a moeda americana bateu os R$ 4,14, maior cotação desde o início do Plano Real.
“Quando o dólar começou a subir, um amigo disse que não era o melhor momento para viajar, mas não quis desistir. Sempre quis estudar inglês fora, sinto que é importante para a minha profissão e já estava me programando desde setembro”, lamenta.
Os custos de passagem, hospedagem e da escola foram pagos com o próprio salário, que juntou por cerca de dez meses enquanto abria mão de gastos extras com lazer. Agora os pais ajudam todos os meses enviando reais que se diluem com o câmbio e pagam a alimentação e transporte com dificuldade. “Não tem um grupo de brasileiros aqui que se junte e não fale sobre a cotação do dia e o medo de se manter”.
2000 – O PT NO PODER
>> O PT chega ao poder em 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva vence a corrida pela Presidência. Durante seus dois mandatos, o País conhece uma ampla ascensão social e estímulo ao consumo. O crescimento estimulou a geração de empregos e as famílias sentiram um ganho de renda real. O Brasil completa mais de 20 anos com a inflação sob controle.
>>O governo mantém os programas sociais consolidados durante a gestão de Lula e cria novos programas sociais que ajudam a manter a economia aquecida durante todo o primeiro mandato de sua sucessora Dilma Rousseff, iniciado em 2011. Os investimentos do governo continuam, mesmo quando o comprometimento dos gastos públicos se mostrava preocupante. Somada à crise de credibilidade diante dos escândalos de corrupção, o segundo mandato da presidente, em 2015, é iniciado com o País sob recessão técnica.
“O sentimento da crise atual é muito mais de frustração. O País viveu mais de 20 anos com a economia estabilizada. Há uma geração que viveu sem saber o que é crise. A classe média ascendeu, começou a consumir mais, a viajar, trocar carro e comprar imóveis. Agora estão percebendo a perda do poder de consumo, que não pode mais continuar no mesmo ritmo”, analisa o professor de economia.
Fonte: JC
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